Meu vô está morrendo, eu acho…

Ele já estava bem velhinho, completou 92, eu acho, dia primeiro de fevereiro. Uns dias antes, semana talvez, caiu no banheiro e quebrou o fêmur, não podia operar porque o coração já estava fraco demais, não podia fazer uma tração (acho que é esse o nome) pois também não aguentaria. E ele ficou por lá, no hospital, esperando.

Depois de uma semana, ele desistiu, apagou de vez… Não reage mais aos medicamentos nem aos familiares. Seus orgãos estão parando, alguns parados. Não nada.

Seu Christovan é um cara bacana. Enquanto meu pai travablhava para me dar o suporte financeiro, meu avó me dava todo o suporte emocional que eu precisava. Ele me ensinou a consertar coisas. Me ensinou a inventar coisas.

Sempre tinha uma história, verdadeira ou inventada, para me contar. Estava sempre preocupado comigo. Certa vez comprou uma máquina de escrever para que eu pudesse fazer um trabalho de escola. Me deu uma espingarda e uma vara de pescar.

Foi ele quem abriu a minha primeira caderneta de poupança e me ensinou o valor do dinheiro, lição essa que eu não aprendi ainda. Foi ele quem me ensinou a ler e escrever. Também foi ele que me levou, várias vezes, para passear no metro, quando o metro era ainda um projeto. E das tardes no parque da aclimação, na torre da igreja aos domingos. Disso eu também não me esqueço, vô.

Dos passeios pelo centro, daquela pastelaria antiga, da cripta, lojas americanas, lojas brasileiras, dos McDonalds da Direita e da Barão. Das idas ao Museu do Ipiranga. Vô, eu me lembro de tudo, de cada dia que passamos juntos. Lembro até dos pastéis em forma de elefante que você fazia para mim. Lembro dos produtos químicos que fomos comprar para que eu pudesse fazer as minhas experiências

Lembro dos parafusos que me ensinou a fazer, de como me ensinou a usar as ferramentas. Das poucas pescarias que fizemos e de tudo o mais.

Das conversas que tinhamos, enquanto a vó conversava com a namorada. De quando rodavamos de ônibus por ai.

Vô, você me ensinou um montão de coisas, só faltou uma: você não me ensinou a não ser um filha da puta que não teve nem coragem de ir visitá-lo no hospital. De trocar mais algumas palavras, possivelmente as últimas, enquanto você ainda estava consciênte.

Vô, te amo. Vou sentir saudades.

Em tempo: Desculpem-se se não tem nada a ver e se não faz sentido. É que as lembranças, assim como as lágrimas, vem sem ordem cronológica, sem tempo nem nada, só tristeza.

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