O rock foi a trilha sonora da minha adolescência. Lembro que, mal tinha deixado os disquinhos infantis (disquinho mesmo, daqueles de vinil, sabem do que eu digo?) de lado, por conta de um álbum de figurinhas (perversa mente diabólica a dos caras daquela época, eles distribuiam os albuns com uns dois ou três pacotes na porta das escolas, e o resto era por sua conta) eu fui atrás de querer saber quem diabos (literalmente) eram Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Kizz e por ai vai. Isso lá pelos 11 ou 12 anos.
Me apaixonei. Aos 14 já tinha cabelos mais compridos do que a maioria das garotas e já me metia me mais confusão do que a maioria do que os caras da 8ª. Isso porque eu estava contra o sistema (estudava em um colégio de freias) e aprendi na prática coisas como opressor e oprimido, crime e castigo e todo esse yada yada.
As irmãs não gostavam de rock, menos ainda de heavy metal. As irmãs não gostavam de quem gostava de rock, menos ainda de quem era headbanger mas, paradoxo dos paradoxos, tinha uma versão bizarra de My Way (veja aqui) contando a vida de Jesus Cristo, vai entender…
Aos 15 eu tinha minha própria banda de rock e, que contradição, estudava música erudita. Foi bom porque aprendi um monte de coisas inclusive a apreciar outros tipos de música. Aos 19 eu já sabia que não ia viver de música, mas viveria com ela.
Aos vinte e poucos, quase trinta, resgatei todos os meus discos e cds que estavam perdidos na casa do meu pai e os guardei em umas caixas. Ficaram lá até estes dias, esquecidos quando, por não ter mais espaço para mim (de volta a luta entre os oprimidos, no caso eu, e opressores, no caso a dona patroa) começei a transormá-los em arquivo digital.
Claro que eu vou começei pelos CDs que é mais fácil, logo me deparei com um que não podia estar lá, pois está datado de 2005 e só era para ter coisas até 2001. O galope do tempo… CD bacana do bom baiano Marcelo Nova, que eu ouvia lá pelos meados de 85, vocalista do Camisa de Venus, o cara que falava palavrão quando era proibido falar palavrão.
Tratei logo de baixar o CD inteiro para o mi-phode (também conhecido com i-phone, mas é história para outro post) e vim trabalhar ouvindo, dei um jeito de encompridar (bastante) o caminho para chegar na última música. Puta que o pariu, é puro rock and roll!!! Tem música pesada e tem balada e o mais importante, tem a pitada exata de melancolia e, reconheci na hora (mas fui verificar na internet) tem os teclados de Johnny Boy.
Tem também uma dose grande de ateismo e desafio misturados com uma certa dose de desesperança e sarcasmo. Escutar o Galope do Tempo é como voltar uns 20 anos no passado, reviver dias nem tão bons mas certamente melhores. Reviver dias em que as coisas eram ou não eram. Dias em que era só colocar a cabeça no travesseiro e dormir.
Então fica eleito o Galope do Tempo a trilha sonora dos próximos dias.
O Deus de Deus. (Marcelo Nova)
Após ter criado o céu e a terra, deus parecia cansado.
Tantos raios perenes, de furia e luz.
De noites caladas, de instantes azuis
Deus estava mesmo excessivamente preocupado
Então Deus perguntou ao seu Deus,
Se ele abençoaria esse mundo,
Mas só obteve como resposta
Um silência profundo
Deus disse, Senhor, voz que sois o meu Deus
E crisastes a mim
Voz que sois o mais justo, o bem infinito
Não me deixes pra trás, nem sufoque meu grito
Era verão e Deus não conseguiu dormir em seu próprio jardim
E vieram animais, serpentes, pardais às portas do paraiso
Dia e noite ocupado, um ser obcecado
Como um Deus que perdeu o juizo
Do barro esculpiu, deu forma e cuspiu
Sua obra de arte
Inspirado e pocesso, arrancou-lhe a costela para que outra mais bela pudesse criar
E pela primeira e última vez, Deus chorou de emoção.
Mas estava exausto, e não quis entender,
O e chamou de pecado
Que a terra seja maldita
Eu não quero vocês aqui do meu lado.
Como criaturas que estavam ao controle do seu criador
Enxertados que foram de ódio e vingança
Não gostaram da imagem
Nem viram semelhança
Os animais acharam que seu deus não era justo
Então Deus perguntou ao seu Deus:
Tanto tempo e esforço pra que
E pensou como seria se ao menos um dia pudesse entender
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